sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PEQUENAS HIPOCRISIAS

      
      



     Ignorando toda a minha vontade,
como uma muralha que tenta conter
a arrebentação da maré,
fujo do óbvio.
Ao invés de dizer o que penso,
muitas vezes invento pensamentos
para dizê-los,
 de forma que não assuste, nem oprima
a quem me cede atenção.                      
Como seriam feias as palavras,
ditas desse coração deformado!
— Amar faz bem — Digo eu,
quando sei o tamanho do seu estrago.
Quem ouviria os conselhos
de uma jovem senhora
sem eira e nem beira na vida,
que muitas vezes embebida
dançava descalça no bar,
entre os provincianos solitários da cidadela,
seus melhores amigos?
Mas quantas noites passei
abafando os soluços no travesseiro
para que ninguém me ouvisse chorar,
mesmo sabendo que não havia ninguém lá para me ouvir.
Era como se a minha dignidade
estivesse sempre do lado de fora da porta do quarto,
esperando-me com aquela sobrancelha erguida
de quem desaprovaria qualquer ato de fraqueza de minha parte.
Quantas vezes virei às costas e sai com o salto quebrado,
mas sustentando-me, ainda, nas pontas dos pés,
para não levar a pleito, o ódio mortal
alvoroçado em minh’alma naquela hora.
Fujo do óbvio, tanto quanto ele me provoca,
todos os dias naquelas vozes macias dos ingênuos,
naquelas febris galanterias dos rapazes,
naquelas fartas discussões
em que se suscita a pergunta
sobre a verdade ou mentira do amor.
Quanto queiram iludir-se, não me afeta,
mas quanto queiram iludir-me, já não aceito.
A beleza feita é perecível
e do nada se perde,
como do nada se ganhou,
ninguém, nem mesmo o amor,


pode vencer a fúria intransigente do tempo.