quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

MICRO CONTOS PHALAVRARIA _ O DIÁRIO SOMBRIO DE UMA VIDA NORMAL

                                                                       


28 DE JUNHO DE 2013

Meu dia começou com o mesmo ato mecânico/natural de todos os outros em que ainda existem dias para se recomeçar. Abrir os olhos na cama é um espetáculo minimalista da permanência inerte neste fluxo incontingente do existir. De todo, isso não é ruim, imaginar que bilhões de átomos coordenados por uma energia metafísica estão trabalhando em minúsculos e milhares de agrupamentos distintos para dar forma ao que compõe o meu ser, é pensar em uma grande engrenagem, como um universo de proporções microscópicas funcionando em prol deste eu que vaga, em tal pensamento, nesta exata hora.
Mas os meus delírios supra-sensoriais terminaram por ali, calcei a botina, a calça, a camisa e o sorriso alaranjado, sai de casa sobre minhas pernas, já sem o meu cajado, andei, peguei o ônibus, não me sentei, havia um banco vago, mas a praxe me ensina a ser educado para não tomar nenhum lugar como meu em detrimentos de outrem, fui adestrado para ser gentil.
Dois pontos pontualmente antes do meu destino e eu já sentia ebolirem as borboletas de brasa em meu estômago, um suor gelado no franzido da testa, um mal estar desgraçado dando nó na minha garganta como se fosse uma gravata encalacrada de tanta, mais tanta repulsa, que eu já sabia conviver com ela.
Eu segui com as mãos arrumadas, a mendigar mais um punhado do meu sustento, $ 3,25 centavos por hora, 60 minutos, 600 segundos e sabe-se lá Deus quantos centésimos da minha vida que ficaria estendida naquele chão de fábrica mais uma vez. As mesmas caras, paredes, tetos, orifícios, fissuras, ondas magnéticas, energias fluídicas se dissolveriam na poluição sonora e no calor infernal, fosse dentro ou fosse fora de mim, tudo arderia nas chamas do meu olhar apagado dentre tantos outros vassalos, criados abduzidos pela necessidade da sobrevivência.
O tempo tem preconceito contra o cidadão de bem, ele voa na velocidade da luz no happy hour, e tropica com seus pezinhos de lesma nas frações espalhadas pelo chão escuro do relógio quase quebrado que marca os períodos de trabalho, a cada 2 horas, foi um minuto na contagem inerciva para o fim da labuta. O sol sorri, recostado em seu céu azul de anil, ás vezes acho que se ele pudesse desceria de lá para me resgatar e me remeter para algum paraíso fiscal bem longe disso tudo, mas meu inferno material me espera em casa, no talão de luz e de água, na conta da internet e na mãe de todas as despesas, o terrível supermercado. Ontem o rapaz da reposição estava remarcando os preços, olhei para ele e sorri como um sol no céu, ele me franziu a testa, deveria estar tão satisfeito quanto eu robô, aqui nesse meu emprego de merda.