quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

PENDURICALHOS / Crônica: por Ana Campos





A vida é um sopro de energia vital em um monte de carne, ossos e nervos, envoltos numa pele com poucos orifícios, apenas os indispensáveis para a entrada dos elementos necessários a sua manutenção, e um cérebro de onde o espírito coordena o seu funcionamento. O que nos distingue uns dos outros são apenas os penduricalhos, a massa externa do corpo físico posta como vitrine para o mundo, sobre a qual se criaram os conceitos de beleza, de gênero, de raça, de estatura... Todo o resto trata-se do trabalho diário, do exercício cotidiano a que nos submetem, numa lapidação mental que vem dar a cada um de nós uma personalidade, uma postura intelectual e uma paisagem diferente do mundo que nos cerca. Poucas coisas há que de fato sejam nossas, talvez certas características in natura, intrínsecas ao nosso EU, no mais, tudo é construído, tudo é superficial.
Tomando esta ideia por verdade, pensemos agora: Quantas pessoas há neste momento que se julgam infelizes? Que se julgam frustradas, insatisfeitas, indignadas, pessoas que se sentem decepcionadas... Gente que não conseguiu comprar o carro que queria nem a casa própria, que perdeu ou que nunca teve o amor da sua vida, que não teve o carinho da família, nem tantos amigos quanto gostaria? Que viveu uma vida de privações ou que teve uma infância infeliz? Gente que passou por maus bocados, que sofreu tormentos, que enfrentou ou enfrenta doenças, enfim, gente que de alguma forma se sente injustiçada? Em contra partida, quantas mais, também neste momento, sentem-se superiores, porque têm o que muitos não têm? Gente que tem dinheiro, fama, saúde, amigos, amores, virtudes...? Não é difícil perceber que vivemos hipnotizados, brigando com fantasmas criados pela nossa convivência uns com os outros.
De todas estas pessoas infelizes neste momento, quantas delas param para pensar, não naquilo que não têm, mas naquilo que têm como a capacidade de respirar sentindo o ar adentrando os pulmões, muitas delas com o privilégio de que este ar seja uma brisa fresca que também lhe refresca o calor da pele. Quantas param para saborear um copo d’água, percebendo-a a irrigar-lhes a garganta e hidratar cada célula dos seus corpos? Quantas, numa noite fria, mal se apercebem voltando pra cama, para debaixo dos cobertores quentes, enquanto tantos se fustigam pelas calçadas geladas da cidade? Quantas, ao invés de lamentar a falta da mistura no prato, não celebram a comida que esta ali e que é o suficiente para sustentá-las? Quantas pessoas acreditam que felicidade é ter a quem se ama do lado sem mensurar que se amassem a todos os que lhes cercam isto jamais lhe faltaria, porque sempre haveria por perto um ou outro ser amado? Elas pegam todo o seu amor e dedicam a uma meia dúzia de pessoas com laços de sangue ou afinidades amigas e se estas pessoas se vão, sentem-se só. Imaginem como seria se elas amassem a todos os seus semelhantes? Esta pessoa provavelmente nunca mais se sentiria sozinha, não é mesmo? Nascemos sozinhos, depois nos apegamos fisicamente aos outros e passamos a depender da presença física destes outros para nos sentirmos bem, como se eles fizessem parte de nós, porém, os sentimentos são etéreos e independem de presença, de contato físico ou visual, e somos livres para amar, não dependemos de recíprocas, contudo continuamos presos a ilusão da necessidade da presença dos nossos seres amados para termos alguma felicidade.
Nosso medo da morte é outro ponto comum de dor inventada, seja da nossa própria morte ou daqueles a quem amamos. Tememos a morte porque ela cessa a vida, esta mesma vida que nos submete a dor, ao envelhecimento, ás tristezas, ás doenças, ao desamor... Tememos a morte porque desejamos o futuro, acreditamos nele, o planejamos, o louvamos, apostamos todas as nossas fichas nele, e aí está mais uma prova de que vivemos hipnotizados pelas nossas ilusões, tememos a morte porque queremos o futuro sem nem ao menos saber que tipo de futuro realmente será o que nos espera. Há coisas tão piores que a morte, mas a isso nunca consideramos, apenas tememos a morte, a nossa e a dos outros, porque vivemos atracados com os fantasmas da nossa imaginação. Acreditamos conhecer o futuro, por isso o desejamos, sobre a morte, no entanto, somos abrigados a reconhecer que a desconhecemos, e tememos sempre o desconhecido que assumimos.
Até aqui estamos divagando sobre os penduricalhos mais expressivos e para não me alongar além da conta, me abstenho de falar daqueles mais supérfluos, das infelicidades causadas pelos desejos mais fúteis como os que o sistema social impele ás nossas mentes, não vou entrar nos méritos de quem se tem por infeliz ao não acompanhar seus sonhos de consumo ou não ter as atenções mais calorosas, nem a família dos comerciais de margarina. Quero concluir este pensamento colocando uma comparação bastante óbvia, mas pouco requerida: Todo ser humano que nasce com vida é igual a todos os outros, ele crescerá e viverá como todos os outros, e se nesta passagem vai beber champanhe francês ou água com açúcar, se vai se casar aos vinte anos e comemorar bodas de diamante, se vai dormir em berço de ouro ou sob as marquises das lojas, se será phD em matemática, ou um analfabeto, comandar um império ou trabalhar no chão de fábrica, se vai escrever seu nome na história ou ser enterrado como indigente, não faz a menor diferença, porque nada disso muda o fato de que o tempo que o nosso sopro de energia vital irá permanecer sustentando este monte de carne com ossos e nervos e orifícios..., é basicamente o mesmo para todos nós, nunca mais que cem cento e dez anos no máximo, e para onde vamos todos? Para o mesmo desconhecido, além da cova, da gaveta ou do fogo do crematório, nada podemos dizer de quem é melhor ou pior, tudo é uma questão do seu lugar na fila, e esta fila nunca deixa de andar. Sei que haverá quem diga que, por isso mesmo, aquele que puder ter uma estadia mais confortável na Terra pelo tempo que permanecer aqui é o que tem a vantagem na história, mas eu lhes digo meus caros, o universo é justo de mais, porque nenhum destes penduricalhos nos garante isso, tanto é verdade que vemos pelo mundo pessoas abastadas financeiramente se jogando pelas janelas dos edifícios e catadores de papel sorrindo pelos cotovelos, vemos pessoas sadias sem nenhuma vontade de viver e doentes se esforçando em serem úteis, enfim, o universo é tão justo que a única coisa capaz de garantir que esta nossa estadia na Terra seja proveitosa, é de graça e acessível a qualquer um que o deseje, seu nome é sentimentos, seu nome é AMOR, mas não o amor que se recebe e sim o amor que se dá, para as pessoas, para o mundo, para a vida, e para nós mesmos.