domingo, 11 de março de 2018

A metamorfose das Borboletas


Obs: Artigo escrito para o jornal Extra - Pará, a convite da minha amiga Edilena Angelim.


Dizem que ninguém que não tenha pelo menos um livro publicado pode se autodenominar escritor, mas eu discordo. Dizem também que o ofício de um escritor é como outra profissão qualquer, mas eu também discordo. Escritor é todo aquele que possui em si um vulcão literário dentro da alma, é todo aquele que, em um momento qualquer, sente escorrer no pensamento a lava quente das ideias como uma explosão mansa e silenciosa, cuja força e necessidade vencem o sono, o cansaço, o frio e o maior dos inimigos, a preguiça, e o faz levantar-se ás pressas e ir correndo escrevê-las antes que a lava esfrie e vire pedra morta no esquecimento, porque é aquela ideia que não se repete, é aquela ideia única, é aquele momento sagrado da inspiração. Eu nunca soube de um médico ou de um pedreiro que só conseguissem fazer um bom trabalho quando se sentissem inspirados, e também nunca soube que estas coisas só acontecessem com autores publicados, existem muitos conceitos defasados para os dias de hoje, quando já se deveria ter admitido que escrever é uma arte. Pessoalmente conheço muitos autores publicados que não merecem o título de escritor, autores até de best-sellers que definitivamente o são por ofício, mas de forma alguma por vocação, há uma diferença muito grave aí que precisa ser discutida, não vou entrar neste mérito agora, mas vale refletir sobre o tema.
Dentro do cenário virtual tenho observado o novo movimento da criação literária do qual eu também faço parte, não apenas escrevendo, mas também através do meu blog, o Phalavraria, que possui um grupo e uma página na rede social. Pelas atividades do blog tive um maior contato com esta nova geração de escritores e pude apreciar boas obras, algumas excepcionais, produzidas de forma independente através das modalidades recém surgidas no mercado após a criação do livro eletrônico no final do século XX. Estas novas modalidades que incluem a autopublicação e a publicação em plataformas literárias são algumas das portas por onde entram nossos novos autores nesse mercado dinâmico do universo virtual de uma forma praticamente instantânea, o que não lhes garante em absoluto, qualquer tipo de sucesso, mas no mínimo tem colaborado para estimular pessoas e escreverem cada vez mais. A grande questão nisso tudo é que, a mesma tecnologia que multiplicou a produção literária, também minimizou o hábito da leitura de textos continuados, criando ai uma disparidade entre a relação de oferta e procura, e com isso, um enorme abismo entre leitores e escritores, especialmente no Brasil. A frustração entre os autores eletrônicos é uma constante visível e a concorrência com outras formas de comunicação chega a ser desleal, em um cenário onde impera a preferência pelos vídeos, a que se citar aqui uma frase de um amigo escritor, José Falero, que disse: “Tenho que fazer um vídeo para falar de literatura”. Este é o contexto em que a realidade virtual nos insere quando o assunto é produção literária. A crisálida ganhou asas e voou, mas elas foram podadas pelos ventos de uma cultura minimalista, onde ler já não é mais requisito básico para o desenvolvimento intelectual de um indivíduo.